Tired of people

I’m moving out of Tombstone, with the sun behind my back. I’m tired of people talking of things that I lack.

Ever since a week ago, the day he passed away I’ve been taking too much notice of the things they’ve had to say.

And all they say is “You ain’t half the man he used to be. He had strength and he worked his life to feed his family.”

So if that’s the way it has to be, I’ll say goodbye to you. I’m not the guy, or so it seems, to fill my old man’s shoes.

Like I’m a wicked way of life, the kind that should be tamed.
They’d like to see me locked in jail and tied up in their chains.
Oh, it’s hard and I can’t see what they want me to do Lord, Lord!

They seem to think I should step into the old man’s shoes.

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Terça

Não há mais sentido no que faço. Nenhum norte. Nenhum oeste. Vontade de comprar uma passagem sem volta para a cidade mais ao norte do planeta. Aonde eu pudesse me distanciar dessa cidade nojenta que odeio. Desse povo purulento. Composto maléfico, união estável e indissociável de pobreza, imundice, putaria, senso comum e malandragem. Passar fogo sobre meu presente e enterrar fundo meu passado. Anular minha existência. Seguir para o Norte e me associar a outras moléculas que desconheço. Outras companhias. Outra família. Outra vida. Renovar os núcleos pesados que me afundam. Restruturar o ser invadido de podridões que sou. Não mais saber o nome de ninguém para não mais saber quem são. Cortar essa praga de lavoura de humanidade definitivamente da minha vida. Reinventar quem sou através do que vivo. Estou preso à vida que escolhi sem saber. Sinto as ligações deterioradas. As mesmas perguntas alimentadas pela burrice crônica e estacionária. Devo dar as mesmas respostas como um hábito nocivo que me consome. Devo ver o dia acabar sem me levantar da cama. Ver o sol se pôr sem reconhecer seu brilho. Ver meu corpo se deteriorar com um riso sardônico que já não agüento mais mirar. Sumir para longe quando a noite calar o sotaque pestilento. Quando o chôro deprimido for calado pelo sono inevitável. Quando todas as fotos se amarelarem pela necessidade da chegada do futuro. Me fizeram molécula. Um tipo. Agregável com moléculas semelhantes que não quero mais me agregar. Preciso mudar minha estrutura para sempre e me associar a todas as dimensões. Permeando o espaço com minha viagem pelo tempo e esquecer o tempo. Desejo que a vida-média dos átomos que me compõem seja reduzida a segundos. Me veria livre do carcomido e adiposo monte de lixo. Viajaria o mundo e o Universo com a liberdade de quem nasce o primeiro nascimento. Peso. Não. Vida. Todas. Esferas sólidas me pesam as tíbias. Cantos do mundo que só imagino pelos olhos da mente me chamam para que eu os encontre. Mas devo me contentar com as imagens captadas pelos olhos míopes de quem não sabe enxergar mas quer ser enxergado. Dizimaria todos. Vou carregar minhas moléculas para outro canto. Onde me será revelado um triste fim de confinamento às paredes que jurei derrubar. Meu testamento. O testamento da existência que não queria ter existido é permanecer em órbita. Pulsando ora luz, ora escuridão aos telescópios dos curiosos observadores e rotacionando infinitamente por sobre o eixo do ninguém que sou.

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Meu amigo Tião

Precisou que se passasse uns 30 e poucos anos da vida de Tião para que eu nascesse.
Precisou que se passasse uns 20 e poucos anos de minha vida para que eu conhecesse Bárbara.
Precisou que eu conhecesse Bárbara para conhecer Tião.
Precisou que se passasse 10 anos de amizade com Tião para que ele falecesse.

Acredito na vida após a vida. Mas sou humano e, como todos da espécie, me apego à presença visual das pessoas. E Tião era uma delas.

Quando nasceu, choraram sua falta os que ficaram no plano do Espírito.
Quando seu corpo morreu, choraram os que o viram partir para o plano do Espírito novamente.

Quis o Universo que eu conhecesse Tião e ele a mim.

Sinto saudades de Tião.

Ele era implicante. Muito implicante. E gostava de implicar com “A Velha”. Esta, é a avó materna de Bárbara, Conceição.

Belo dia, quis eu entrar na famigerada implicância e, ao abraçá-la, cantei “Conceiçãããããoooo….” ao que ele prontamente completou rindo de se acabar “… Eu me lembro muito beeeemmm…”. Típico do gaiato. E Tião era um gaiato. Gaiato velho e experiente.

Isso tornou-se um ícone de nossos encontros; não só em Padre Miguel mas em qualquer canto que Tião me avistasse (e poderiam ser muitas vezes no mesmo dia) ele vinha:

— Vai cantar o quê???

Ao que eu respondia cantarolando e abraçando-o como um boêmio (ou, dependendo da distância, apenas abrindo os braços):

— Conceiçããããããooooo….

Gaiatice.

E todos gostavam e se riam.

Até que nossa implicância teve que ser clandestinizada. A Velha, um dia embebida em azedume, fez cara feia. Como que contaminados pelo azedume, todos fizeram cara feia e fomos para a berlinda com nossa brincadeira. Esta, jamais havia terminado até o último dia em que nos encontramos; mas fora para sempre marginalizada.

Tião era chamado por Sueli, madrinha da Bárbara, de Tião Medonho. Consigo imaginar alguns porquês. Nada muito esclarecido. Nem precisava. Bastava olhar para a cara do Tião para entender a alcunha.

Conversávamos bastante quando nos encontrávamos. Mas sempre com poucas palavras e muitas risadas. Maior parte das vezes eu era apenas ouvidos e risadas para suas gaiatices.

Tião gostava de músicas antigas, e eu o acompanhava porque também gosto das velharias. Certa vez ele me pediu para que eu gravasse três CDs para ele: Estúpido Cupido Internacional, A Escalada, e Saudade Não Tem Idade. Os dois primeiros eram discos de novelas antigas da Rede Globo. O último, uma coletânea de antiguidades. Aliás, coletâneas como essa ele tinhas aos montes. E dançava todas com aquela cara de saudosista gaiato.

Nunca cheguei a gravar o último disco.

Tião era amigo de todos e todos eram seus amigos. Se Tião já teve algum inimigo, este deveria ter sido sujeito inexistente pois eu jamais o conheci ou encontrei alguém que confirmasse sua existência.

Tião era fanfarrão. Mas a fanfarronice dele começou a ficar estranha de uns meses até cá. Algumas ziquiziras de saúde eu ouvia que ele tinha. Mas ele se “recusava a ir ao veterinário”, como dizia (e quis o Universo que eu me formasse veterinário).

No último mês vi Tião duas vezes. No casamento da Fabrizia, filha do padrinho da Bárbara, e num dia quando fomos à casa da Velha Conceição (que era vizinha dele, esqueci-me de mencionar). Nesta vez que fomos na Velha, vi fotos de Tião com a mãe da Bárbara, Graça, filha de Conceição. Ambos pequenos. Tião era um membro adquirido pela família nos idos dos anos de 1950. Sempre morando porta-a-porta.

E neste dia, ao irmos visitá-lo, ele estava pra baixo, queixando-se de uma dor na barriga que estava inchada. Até que, pela primeira vez que tive notícia, Tião foi convencido a ir ao médico (veterinário). Daí partiu para a internação.

Algumas semanas depois, ele falecia, com sessenta e poucos anos. Dia 17 de outubro, entre 4 e 5 da manhã, horário de verão, no dia do aniversário de seu filho mais novo.

Eu e Bárbara não fomos visitá-lo no hospital durante sua internação. Se tivéssemos optado em ir, tinha que ser bem no início, pois, pelo que ficamos sabendo por Graça, ele estava definhando e já tinha jogado a toalha.

E então foi ontem que ao chegar no velório em Padre Miguel, eu mentalizei Tião, abrindo seus braços em minha direção, com um sorriso gaiato estampado na cara, perguntando: “Vai cantar o quê??”

E eu não consegui cantar.

Vai cantar o que?

"Vai cantar o quê?": Bárbara e Tião, no aniversário de seu neto.

Pura implicância: Tião empurrando A Velha.

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